Entre aspas " A fórmula da salvação"





Ser escritora é diferente de ser terapeuta. Às vezes as pessoas confundem isso. Mas eu e você sabemos que às vezes as pessoas confundem muitas coisas.


Cada um lida de um jeito com as adversidades. E ninguém tem que ser igual. Não tenho fórmulas, bola de cristal, tampouco sou melhor que ninguém. Eu apenas tento resolver. E viver. Nem sempre é fácil e lindo, mas é o jeito. Não tenho vocação para suicida ou sofredora, então eu choro tudo que tenho para chorar, reclamo tudo que tenho para reclamar e dou um passo de cada vez. Às vezes dou um passo para trás. É que nem sempre sei andar para a frente, sem mágoa, sem rancor, sem revolta. Volta e meia a gente traz coisas indesejáveis na bagagem.


Já ouvi várias vezes ah-como-você-lida-bem-com-as-coisas. Não, não lido. Sou péssima em lidar "com as coisas". Sou ciumenta com coisas bobas, impulsiva pelo menos uma vez por dia, leio bula de remédio e depois acho que tenho aquele bando de sintomas, meu dedão do pé não é bonito, quero tudo do meu jeito e minha cabeça é muito, muito dura. Não sou uma musa, uma diva, uma entidade, uma mestra. Sou uma pessoa. E de vez em quando sou uma pessoa péssima. Péssima mesmo. De vez em quando morro de vergonha de mim. E se eu fosse você morreria de vergonha de mim também. Amo muito, tudo é muito, tudo é exagero, tudo é demais. Inclusive as dúvidas e as dores.


Não sou a salvação de ninguém. Nem a minha. Muitas vezes me pergunto afinal-de-contas-o-que-eu-faço-de-bom-para-o-mundo? Sinceramente, não sei. Escrevo textos e livros, sei que "ajudo" as pessoas de alguma maneira. Sei que minhas palavras podem fazer rir, chorar, pensar, amar. Faço anúncios, roteiros, folders, cartazes, e-mails marketing, textos de rádio, textos para sites, jingles, spots. E muda o quê? E ajudo quem? E salvo quantas vidas por dia? Tenho essa paranóia de ficar me perguntando e-aí-estou-cumprindo-a-minha-missão-na-terra? E eu sei qual é a tal missão? Ou estou andando em círculos, presa em um labirinto sem fim dentro de mim? Velhas perguntas que não encontram respostas que sustentem uma vida. Ou muitas.


Nem sei se tenho salvação. Você tem? A gente se preocupa com pequenices. Com tolices. E agimos feito uns coitados. Ai, coitada de mim, ele me deixou. Ai, coitada de mim, não entro no jeans. Ai, coitada de mim, queria ter olhos verdes. Ai, coitada de mim, queria ter 5 cm a mais. E quem passa fome e frio? E quem não tem ninguém no mundo? E quem se mata trabalhando pra chegar um imbecil com uma arma dizendo quero-toda-tua-grana? E quem tem uma doença terminal? E quem tem um filho autista? E quem quer morrer, pois não aguenta a dor que sente no corpo? E quem está ferrado, sem um puto no bolso, sem plano de saúde e tem que fazer uma cirurgia que custa R$ 65.000,00? E?


A gente tem que parar AGORA de olhar para o nosso mundinho. Eu preciso fazer alguma coisa. Você precisa fazer alguma coisa. Assim não dá pra ficar. Não posso resolver a sua vida, os seus problemas, as suas confusões. Estou presa nas minhas. Na minha teia de complicação. Desculpa, preciso usar e abusar do meu egoísmo agora. Não posso salvar a sua vida. Tenho o meu trabalho, tenho os meus projetos, tenho o meu livro para escrever e entregar até o final do ano, tenho minha família, tenho meus amigos, tenho minhas maluquices para colocar em ordem. Agora, sou eu. Agora vou me preocupar comigo. Preciso me salvar. Se eu conseguir te dou a mão. Em todo caso, aviso: é melhor você começar a olhar para a sua vida. Ninguém salva ninguém.



"Clarissa Corrêa

Clarissa é Clarissa porque um dia a dona Clara leu um livro e decidiu que assim seria. E assim foi. Depois de passar pelas faculdades de Direito e Psicologia, decidiu fazer o que mais ama: escrever. Concluiu o curso Formação de Escritores e Agentes Literários, na Unisinos. Escreve crônicas, contos, receitas, bilhetes, cartas, cartões, títulos, textos e, se bobear, até bula de remédio. É redatora publicitária e autora de dois livros: Um Pouco do Resto (crônicas) e O amor é poá (frases)."

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